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REINOTECA

Priorizando o Reino de Deus

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Destruição, reconstrução

“Conhecer Jesus pela fé é nossa alegria. Segui-lo é uma graça. E dar testemunho, a doação aos outros, é um serviço que Ele nos confiou” (Zilda Arns)

Mãos crispadas, olhos esbugalhados, soterramentos esmagadores, fome, sede, desamparo, mortes, ferimentos, desespero, terremoto de 7,1 graus na escala Charles Richter (como se 30 bombas atômicas explodissem sobre Hiroshima), arrasando o País de 10 milhões de habitantes, dos quais 80% abaixo da linha da pobreza. Haiti da putrefação, da dor, da destruição. Haiti, ex-pérola das Antilhas, dependência absoluta para ser reconstruído.

Fendas de quilômetros de profundidade e comprimento abriram-se sob a terra. Tragédias semelhantes aconteceram antes. Lisboa, por exemplo, foi sacudida por um terremoto em 1755. Insondável natureza, força que os cientistas ainda não conseguem prever para um alerta geral. O escritor francês Voltaire enfureceu-se contra o divino no caso de Portugal. Como muitos fazem hoje, nessa hora culpam abstratamente o Altíssimo (embora se declarem céticos irreversíveis) com toscos e pueris comentários sobre bondade e justiça. Não é preciso dizer mais. Você já viu na TV, leu, ouviu, sabe tudo a respeito.

Desembarquei de navio numa das ilhas do Haiti, no final de 2008. Na recepção, alegre música e cântico identificado por uma grande placa colorida, onde estava escrito: “Salmo 90”: (...Tu reduzes o homem ao pó (vers.3), diante de ti puseste as nossas iniqüidades, e sob a luz do teu rosto os nossos pecados ocultos (vers.8), acabam-se os nossos anos como um breve pensamento (vers.9)... Pensei nisso assistindo na TV o momento em que uma jornalista francesa aproximou-se de um homem soterrado entre blocos de concreto, rosto visível só bem ao fundo, e perguntou: o que você tem a dizer agora para você mesmo? A resposta, imediata: “sou cristão, a minha vida está nas mãos de Jesus”.

Pareceu-me uma metáfora: nossa vida está nas mãos do Senhor, é preciso assumir sem vacilar. Na mesma Porto Príncipe, sucumbiu a médica brasileira Zilda Arns, paixão missionária pelas crianças e pelos idosos, e militares do Exército brasileiro em missão de paz. Um amigo de Zilda revelou uma mensagem que havia recebido dela, durante as festas de final de ano: “Conhecer Jesus pela fé é nossa alegria. Segui-lo é uma graça. E dar testemunho, a doação aos outros, é um serviço que Ele nos confiou”.

Há um episódio de relato triste e doloroso nas Escrituras, quando se conta que Davi e o povo choraram até não terem mais forças para chorar. Está escrito em I Samuel 30.4, capítulo que descreve a ruína de Ziclague, destruída pelos amalequitas. A cidade incendiada e suas mulheres, filhos e filhas, levados cativos. Que fazer numa hora dessas? Conta a Bíblia: “... porém Davi se reanimou no Senhor seu Deus”. Mutatis mutandis, a fórmula para enfrentar o terrível desafio haitiano reúne momentos que a humanidade mostra o que tem de pior (destruição, saques, assassinatos, espancamentos, atos de desespero para sobreviver) e paralelamente o que possui de melhor: os gestos de amor, solidariedade, os esforços humanitários, o cumprimento da lei divina ao determinar que amemos ao semelhante como a nós mesmos... O Haiti não conseguiu ainda ser Estado, depende em tudo de todos. Como diria o homem sob os escombros (ele foi resgatado), nossa vida está nas mãos de Jesus. Mas não é preciso estar em agonia para descobrir esta maravilha. Como escreveu Zilda Arns, “conhecer Jesus pela fé é nossa alegria”.


Percival de Souza
é escritor, jornalista e membro do Conselho Diretor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista

http://www.eclesia.com.br/colunistasdet.asp?cod_artigos=1179